segunda-feira, 28 de maio de 2007

Senadores apóiam Renan, mas caso vai para corregedoria

Por Ricardo Amaral e Natuza Nery

BRASÍLIA (Reuters) - Num clima de constrangimento sem precedentes no Congresso Nacional, senadores e líderes partidários formaram fila na tarde desta segunda-feira para abraçar o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL).

Em discurso da cadeira de presidente, Renan Calheiros havia acabado de fazer discurso para negar que suposto lobista tenha pago suas despesas com uma filha fora do casamento.

O ritual de abraços, que durou pouco mais de dez minutos, foi organizado com a colaboração do líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR). Segundo o líder, "foi uma demonstração de solidariedade do plenário." A "solidariedade" dos colegas não vai impedir, no entanto, a abertura de uma investigação interna pelo corregedor do Senado, Romeu Tuma (DEM-SP). Tuma anunciou que vai examinar documentos e ouvir testemunhas sobre o caso, para ver se cabe uma denúncia formal ao Conselho de Ética.

"É triste para a política brasileira que o presidente do Senado Federal venha, nesta condição, explicar uma ação de alimentos, comentar a privacidade de sua vida pessoal", disse Renan, depois de pedir "profundas desculpas" à mulher, aos filhos e aos senadores.

Diante do plenário lotado, e na presença da mulher, Verônica, que estava nas galerias, Renan contou que tem uma filha com a jornalista Mônica Veloso. A criança nasceu em setembro de 2004, quando Renan era líder do PMDB.

Ele disse que "não fugiu à responsabilidade" pela filha, mostrou a certidão de reconhecimento de paternidade e exibiu documentos para tentar demonstrar que vem pagando, com recursos próprios, a pensão alimentícia desta filha.

Segundo a revista Veja, uma pensão equivalente a 16,5 mil reais estaria sendo paga não por Renan, mas por Cláudio Gontijo, empregado e supostamente lobista da construtora Mendes Junior.

O senador negou a acusação e disse que Gontijo é "amigo comum" dele e da jornalista. Por essa condição, Gontijo teria sido intermediário entre os dois.

Renan afirmou que estava sendo "constrangido a violar" sua privacidade e a "confessar pecado", como se estivesse "no confessionário, para pedir perdão e fazer penitência."

Para provar que paga pensão mensal de 3 mil reais, ele mostrou cópias de seu contracheque do Senado, que registra o desconto desde fevereiro de 2006, dois meses depois do reconhecimento oficial da paternidade, em dezembro de 2005.

Antes do reconhecimento formal, Renan disse ter pago entre março de 2004 e novembro de 2005, aluguel de residência e cerca de 8 mil reais a jornalista mãe da criança. Também disse ter feito um pecúlio de 100 mil reais para a educação da filha, mas não exibiu comprovantes desses pagamentos.

Os recursos para o pecúlio, o pagamento de 8 mil reais por mês e do aluguel, antes do reconhecimento oficial, teriam vindo de rendimentos que Renan obtém da fazenda Novo Largo, em Alagoas, avaliada em 120 mil reais, no ano de 2004, segundo extrato de declaração do senador à Receita Federal.

"Renan reagiu rapidamente, não tenho o direito de duvidar de uma palavra do que ele afirmou", disse o líder do DEM no senado, José Agripino (RN).

A senadora Lúcia Vânia (PSDB-GO) destacou "a forma franca" das explicações e o senador Paulo Paim (PT-RS) disse que o Senado "mostrou solidariedade numa acusação que envolve questões de foro íntimo."

Renan leu durante 23 minutos um discurso redigido sob supervisão de advogados, sem ser interrompido. Ao final, num gesto combinado, o líder Romero Jucá pediu que a sessão fosse interrompida para os senadores cumprimentarem o presidente.

O presidente do PMDB, Michel Temer, o ministro das Comunicações, Hélio Costa, o ex-presidente da Câmara Aldo Rebelo (PCdoB-SP) e o líder do Governo na Câmara, José Múcio (PTB-PE), foram ao plenário do Senado e entraram na fila para abraçar Renan.

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